Tempos livres

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

...


Quando estou só reconheço


Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.


E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida.

Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Lágrima de preta...

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

* * *

Mais importante que a cor, raça ou ideologias, é o que o ser humano sente no fundo do seu coração. De que interessa ser branco se o coração é mais escuro que breu. O que realmente conta é os sentimentos que temos e o modo como agimos quando somos confrontados com as situações!
Um abraço,

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Poema XVIII . . .

Poema XVIII

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

* * *

Hoje queria falar um pouco mais... Sinto-me triste e cansado. Não sei se este estado de espírito é fruto de dormir pouco, ou se algo mais...
Quando iniciei este blog não sabia que nome lhe dar, depois de muito pensar decidi, em busca do caminho, mas não era bem assim que eu o queria, porque o enderço é viver_e_ser_amado.blogspot.com.
E talvez esse seja o motivo da busca. Não nos podemos esquecer que viver é ser amado! Não podemos viver verdadeiramente nem ser felizes se não nos sentirmos amados... Mas amados por quem?
Amados, talvez desde a nossa concepção, pois muitos de nós fomos fruto do amor dos nossos pais, mas à medidda que vamos crescendo vamos descobrindo que nem tudo é amor à nossa volta, que nem sempre somos amados, ou pelos menos como gostariamos.
É importante saber que somos amados e são diversas as formas pelas quasi o amor se nos manifesta, através dos nossos pais, dos nossos familiares, dos nossos amigos. Daqueles que nos fazem sentir bem e que são capazes de nos amar condicionalmente, porque para lá das aparências exteriores eles sentem que algo nos une e que o mundo sem amor não é mundo, é inferno...
Seremos capazes de amar aqueles que nos rodeiam? Ao ponto de ser sentirem amados? Ou pensamos que isso não é para nós, não temos tempo?
Que em cada novo dia sejamos capazes de amar e de fazer os outros sentirem-se amados...
Um abraço,

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

S. Vicente de Fora


A Igreja celebra hoje a memória de S. Vicente. Este santo é o Padroeiro Principal do Patriarcado de Lisboa e secundário da Cidade de Lisboa.

Vicente de Saragoça, também conhecido como São Vicente de Fora, foi um mártir do início do século IV que sofreu o martírio em Valência, juntamente com o seu Bispo de quem era diácono.

Entre as muitas localidades e igrejas de que é padroeiro, contam-se a Diocese do Algarve e o Patriarcado de Lisboa, em cuja Sé se encontram algumas das suas relíquias.

Durante o Império de Diocleciano, o delegado imperial Daciano moveu na Ibéria uma perseguição aos cristãos. Vicente recusou oferecer sacrifícios aos deuses e foi cruelmente martirizado até à morte, que terá ocorrido em 304.

Em Portugal é representado de modos diversos: com palma e evangeliário ou, mais habitualmente, com uma barca e um corvo, porque, de acordo com a tradição, quando, em 1173, o rei Afonso Henriques ordenou que as relíquias do santo fossem trazidas do Cabo de São Vicente (o então «Promontorium Sacrum»), junto a Sagres, para a cidade de Lisboa, duas daquelas aves velaram o corpo do santo que seguia a bordo da barca – facto a que ainda hoje aludem as armas de Lisboa e de muitas outras povoações portuguesas.

Fonte: wikipédia

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

As palavras...

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.

Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Urgentemente...


Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Confiança...

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

* * *
O sonho comanda a vida, escreveu um dia FP, e essa é uma grande verdade. Sempre que o homem sonha algo belo e nobre nasce. "O homem sonha, Deus quer, a Obra nasce"... (F P -Mensagem). Assim acontece todos os dias, assim se fazem grandes obras. Quando somos pequenos nas nossas cabeças formam-se ideias do que queremos ser um dia, mas com o passar do tempo, alguns desses sonhos vão-se desfazendo, mas surgem outros no seu lugar...
A vida vai-se fazendo aos poucos, dia após dia, e quando olhamos para trás verificamos que nem sempre o caminho foi linear, por vezes andámos às voltas, mas certamente perseguimos os nossos sonhos! Valerá a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena (FP)...
Então continuemos a sonhar e pode ser que consigamos construir um mundo melhor!
Um abraço,

sábado, 12 de janeiro de 2008

Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeiçao
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O amor é uma companhia...


O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


Alberto Caeiro